domingo, 10 de junho de 2018

Pintura com terra

Este pode ser o primeiro capítulo de uma nova aventura! Na iminência de executar um projeto artístico no Vale do Jequitinhonha, resolvi experimentar a tinta ecológica feita com terra. Este material consiste na coleta, na natureza, de terra em vários tons, e após preparo com água e cola branca, uma tinta de ótima qualidade cromática e com excelente resistência surge. Por ser um produto natural, não causa qualquer dano ao meio ambiente, e tem um custo muito menor. Em apenas duas horas de caminhada na roça, num espaço de quatro quilômetros, encontrei por volta de oito cores diferentes de terra, das quais utilizei, para o presente trabalho, apenas seis. As cores na região explorada variaram em ocres, marrons acastanhados, vermelhos e cinzas. Esta paleta de cores pode ser muito maior, conforme a geologia dos distintos locais e sua composição mineral, e o resulto é surpreendente! Tal experiência permite, além de tudo, uma nova visão acerca da natureza e seus recursos, bem como de suas cores e diversidade. 
Apliquei a tinta em parte de um muro, mas ela adere a outras texturas e superfícies. Todo processo artesanal é um pouco alquímico, necessitando para tanto coragem de errar, na busca de acertos e soluções.

Logo, espero relatar aqui novidades acerca do referido projeto no interior de Minas...

 Coletando a terra


 Tons de terra encontrados


Trabalho pintado com o produto



quinta-feira, 31 de maio de 2018

Uma parede na escola

Outro dia, numa escola perto de minha casa, flagrei uma parte do muro onde, apesar do esforço de se fazer um acabamento bonito, alguma interferência posterior largou uma terrível cicatriz na parede. O projeto inicial parecia prever detalhes elaborados com azulejos coloridos, emoldurando o que aparentava ser uma janela, que foi fechada da maneira mais crua e rústica com massa sem qualquer cuidado. Isso resultou num pormenor completamente contrastante, entre algo que foi feito com carinho, e algo feito com completo desleixo. Bem... eu não cheguei a conversar com a direção da escola no sentido de especular aquilo, ou saber se mesmo trata-se de algum projeto ainda em andamento. E muito menos solicitei autorização para desenvolver ali uma pintura que, ao menos paliativamente, pudesse amainar uma certa sensação de abandono. 
Aliás, aquele pequeno detalhe remeteu-me à própria situação da educação em nosso país, com seus investimentos parcos, recursos sucateados e professores esgotados e sem reconhecimento. Aquele incômodo estético, repleto deste contexto implícito, simplesmente chamou-me à ação. E resolvi fazê-la sem qualquer comunicado com a instituição, já que, muitas vezes, o artista que se propõe trabalhar na rua não pode esperar os processos burocráticos  necessários para, simplesmente, fazer seu trabalho. Em outras palavras, acabamos mesmo assumindo esta atitude que, embora vândala, muitas vezes cumpre um papel verdadeiramente social. Tomei meus pincéis e, num feriado, deixei lá minha pintura, naquela parede de chapisco ingrato e estéril, que ao tom das cores, pareceu mesmo criar um pouco de vida...


O PODER DA LEITURA...

sábado, 26 de maio de 2018

A pintura da pracinha

Em meu bairro há um canteirinho central, daqueles em formato de ilha que dividem as pistas automotivas, e que tem como orgulhosa moradora uma pequena árvore. Era um bloco de cimento apagado em meio às linhas urbanas, e a despeito de sua solitária árvore, tinha uma certa atmosfera infértil. Ao caminhar por ali, aquela árvore parecia-me estar sempre arquejando para respirar, embora eu soubesse que suas raízes estivessem bem cravadas na terra. Elaborei então um pequeno e simplório projeto de intervenção pictórica que, de certa forma, trouxesse mais vida ao espaço, e consequentemente o tornasse mais perceptível pela própria comunidade.
Utilizei a linguagem que já tem sido recorrente em meu trabalho, que consiste na junção de figuras infantis a elementos gráficos geometrizados, o que resulta em imagens coloridas, dinâmicas e com certa aura de alegórica. Como tem acontecido recorrentemente, ao começar as pinturas nesses espaços públicos, as crianças da região surgem de todos os lados, com sua peculiar curiosidade e fascinação, além de suas astutas observações. Elas pedem, com uma certa atitude constrangida, cautelosa e sem muita convicção, para ajudar na pintura, e ao receber contentes tal autorização, iniciam o trabalho com imenso cuidado, que vai se diluindo na medida em que, compreendendo a dinâmica do ofício, tornam-se mais confiantes e até mesmo ousadas. As crianças possuem um poder de inventividade extraordinário, como já é sabido, e tudo que ás vezes precisam são recursos para manifestar isso.
Após quase um dia inteiro de trabalho, terminamos a pintura, com imensa satisfação de meus pequenos auxiliares, que deixaram orgulhosos, junto a minha, suas próprias assinaturas. Deixei que eles mesmos fotografassem o resultado com minha câmera, o que deu-lhes grande alegria e um certo ar de "importância", ao manusear um instrumento aparentemente tão sério. No fim, mesmo a pequena árvore pareceu-nos grata, oferecendo imediatamente seu pequeno caule e suas galhas para a meninada subir...






segunda-feira, 2 de abril de 2018

As pinturas na roça, e o triste abandono do sertão

Como tenho postado aqui, eventualmente, desde algum tempo executo pinturas em ruínas e casas abandonadas pelo mato, em vários locais. Este trabalho é, além de muito prazeroso, um tanto quanto angustiante! Tenho observado nessas andanças um grande número de residências abandonadas, fechadas e entregues à inclemente ação do tempo e das intempéries. Posso constatar que as novas gerações, motivadas por razões óbvias de uma precariedade de recursos, pelos atrativos da vida citadina e outra série de dificuldades,  que passam mesmo por questões sérias, como a degradação natural do habitat e uma consequente "inconstância" da própria natureza, tem optado por migrar para os grandes centros urbanos, onde encontram maiores e melhores possibilidades. O pequeno produtor rural tem se tornado cada vez mais raro, e segue vivendo numa situação de quase subsistência. Os produtos provenientes das culturas rudimentares e naturais são substituídos cada vez mais por uma produção de grande escala e transgênica, cujas consequências, seja pelos impactos ambientais ou no quesito da própria qualidade em relação ao organismo humano tem sido discutido em larga escala. Estamos cada vez mais submetidos a agentes químicos, víveres artificiais e manipulações laboratoriais das grandes lavouras e criadouros, o que certamente já tem apresentado resultados preocupantes.Tudo isso segue um cálculo previsível, uma vez que a humanidade tem se multiplicado de uma forma sem precedentes, e os recursos do planeta tem se tornado cada vez mais escassos, sendo assim necessários arranjos ainda inéditos. Somados, obviamente, a uma ambição desmedida das grandes empresas e produtores, que não se incomodam com suas atividades nocivas.
O jovem das zonas rurais, como foi dito, não possui estímulo ou investimento para continuar na labuta familiar, muitas vezes e por gerações sacrificante, cuja colheita já não consegue competir com a produção industrializada, e assim acaba sendo mais sensato deixar a velha casa na busca de outras aspirações e tecnologias. Com a morte dos antigos moradores,  que perseveram persistentes e irredutíveis, uma época em franca extinção, tais casas, mesmo possuindo em algum lugar seus respectivos donos, resultam abandonadas. E eu já disse alguma vez aqui neste blog que, uma casa sem pessoas é uma casa sem alma. É muito triste deparar-se com uma vivenda, repleta de fantasmagóricas reminiscências em suas paredes, sem a vida que lhe confere um encanto pulsante, tal qual clorofila que corre em tronco ainda verde, e mesmo que pelo ponto de vista estético a ruína tenha seu charme, muitas vezes algo ali continua clamando por esta vida. Deixar minhas pinturas  nesses logradouros acaba sendo uma tentativa, precária e fantasiosa, é verdade, de conferir-lhes uma atmosfera viva e ainda latente. As cores e as formas por mim impressas, ao evaporar-se com a casa, mostrarão que ali ainda há algo de humano, algo que há de perecer com a própria estrutura, e talvez aquele lugar não soe tão melancolicamente solitário...




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Pintura na vila

Executei nos últimos dias uma grande pintura na fachada de algumas casinhas em meu bairro. Tendo escolhido o local, um quarteirão onde as residências não tinham acabamento, entrei em contato com os moradores afim de conseguir, junto aos mesmos, autorização para fazer o trabalho. Obviamente, todos acataram a ideia com entusiasmo! 
Elaborei um projeto simples para apreciação da comunidade, consistindo numa pintura que, embora contínua, pudesse também ser vista em blocos, conforme as divisórias das casas, mantendo assim uma certa singularidade das mesmas. Optei por criar uma composição colorida, infantil, de forma que as paredes de tijolos esburacados ou chapiscadas adquirissem uma atmosfera mais alegre e vibrante. Durante a feitura do trabalho, vi o quanto tal pretensão atingiu seu objetivo! A rua, outrora cinzenta e sem encanto, começou a ganhar vida. As pessoas, moradores ou transeuntes, mostraram-se mais animados e contentes; Logo, na medida em que eu ia confeccionando a pintura, cada morador procurou, a seu modo, fazer alguma melhoria em seu próprio muro, seja pintando os portões, limpando a calçada ou pintando de branco os postes da rua. A cada dia, eu sempre tinha uma numerosa plateia de crianças, jovens, adultos e velhos, que discutiam entre si a evolução do trabalho, seu significado ou mesmo a melhor maneira de preservá-lo de futuros danos. 
A pintura em si não tem nada de surpreendente ou espetacular. Pintar, utilizando-se de pincel, num suporte tão grosseiro, é mesmo uma tarefa das mais estafantes e complexas! A obra resultou, neste contexto, bem simplória e rústica! No entanto, o impacto que este trabalho causou em seu meio transcende a questão da qualidade técnica ou visual. Aquele contexto cujas entrelinhas só quem comunga com a situação pode perceber. É incrível como algo tão singelo pode afetar, de uma forma tão cativante, o coração das pessoas, estimulando-lhes uma vibração mais afetuosa! A arte, neste caso, é apenas uma via de acesso à essência humana, muitas vezes velada pelas agruras do mundo. Esta sim é bela, quando irradiada em sorrisos, esperanças e brilho no olhar. E somente isso pode justificar a recorrente questão das pessoas ao verem-me, sol a sol, fazendo algo assim: _O que você ganha com isso?..


    antes
 

   depois









domingo, 14 de janeiro de 2018

A arte é para quem?

Quando ainda estudante de artes na Universidade Estadual de MG, no ano de 2004, fiz um interessante estágio no CAPS( centro de atenção psicossocial) da cidade de Lagoa Santa, próxima a Belo Horizonte. Tal experiência marcou minha entrada no universo dos serviços de saúde mental, onde dediquei mais de dez anos como instrutor de artes e música. Certamente, influenciado por tudo quanto aprendi nesta trajetória exaustiva e gratificante, e sobretudo no que se refere à autenticidade, pude enfim decidir trilhar o caminho das artes. 
Tenho visto que tal decisão é mesmo corajosa! Desde então posso observar, não sem certo amargo conhecimento de causa, toda a manipulação mercadológica que se faz acerca da arte, num movimento que seleciona e filtra, visando certos propósitos, o que se considera arte ou não. Para tanto, são atribuídos valores e conceitos que justificam, por complexas retóricas, ao que se elege como arte, afim de que esta seja uma joia rara e preciosa acessível apenas a poucos. Uma vez que objetos de arte tenham se tornado um dos maiores e mais cobiçados investimentos financeiros do planeta, o conceito da arte fica comprometido ou turva-se diante de interesses que extrapolam seus fatores intrínsecos. A própria ação do artista, muitas vezes regida pelos ditames deste mercado, torna-se inconsistente e perde sua subjetividade. Obviamente, mesmo os artistas, em sua conduta revolucionária,  sentem-se tentados pelas boas promessas da fama. Porque, em sua maioria, estes possuem arraigada uma vaidade tão saudável quanto caprichosa. 
Bem... eu ainda não entrei neste circuito, reservado a tão poucos, e confesso que a despeito de todas as benesses, sinto-me indisposto a tal. Acredito mesmo que tal sistema não me acatará, visto eu não possuir a sofisticação conceitual que ele exige. Mas pode ser que algum dia eu volte aqui neste blog para falar acerca da fama, tendo-a alcançado, assim podendo discorrer com propriedade acerca do outro lado da moeda. E corroborando o fato de que muitos artistas deixam-se seduzir! Mas sigo, no momento, fazendo aquilo que, penso ser arte, pretensão bem questionável na concepção da crítica atual, e o faço com o maior despojamento. Por isso tenho dedicado parte do meu tempo, e um grande  esforço e investimento financeiro pessoal em trabalhos públicos, afim de levar tais concepções às pessoas ditas comuns. Penso assim estar, de certa forma, cumprindo algum papel relevante no que se refere a um impacto social, o que tem sido confirmado a partir do retorno das próprias pessoas. Isso traz uma imensa satisfação, e mesmo que não supra minhas necessidades de ordem de auto-manutenção, faz com que minha vida, e tudo quanto tenha eu tenha aprendido, tenha algum propósito vital.
Após treze anos, resolvi fazer alguma obra pública em Lagoa Santa, onde acabei criando fortes vínculos. Encontrei, na beira da mítica lagoa, uma construção abandonada, que me disseram tratar-se de antiga sede da Copasa( companhia estatal de água). Ali pintei uma bailarina, numa explosão de cores, celebrando esta sensação quase transcendental que a arte, em qualquer lugar, e a qualquer um, causa( ou deve causar). E, no meu precário ponto de vista, não me importa se ela seja ou não comercial, simples ou complexa, tenha ou não o respeito da instituição crítica, desde que seja autêntica. Virtude esta que, como foi dito, tenho tentado praticar a partir do que observei em pessoas com sofrimento mental.  Isso sim define seu valor! Seja causando encanto ou aversão, possa cumprir o papel de instigar as pessoas sem distinção de casta, sem promover privilégios de classes exclusivas,  estimulando-lhes sensações, percepções e reflexões. O que não for assim, é só mais uma criação do capital, este anti-artista da natureza humana... 



O BALLET DAS CORES- acrílico sobre parede
#streetart #ballet #lagoasanta 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O poder tão simples da arte

Para terminar o ano de 2017, fiz uma última pintura na rua. Foi um ano interessante, em que produzi muitas pinturas públicas em vários países, com grande ênfase ao nosso próprio, e terminá-lo assim foi muito especial! Esta pintura foi feita num muro em região periférica na cidade de Lagoa Santa, e tem como fator mais vibrante a própria simplicidade. Tanto o local, como o tema e a técnica utilizada, não possuem muita sofisticação, estando vinculados por uma atmosfera cativante e singela. O propósito foi conceber algo integrado ao suporte e seu contexto, sendo este um muro de blocos, imprimindo uma imagem cujas cores pudessem contrastar de maneira vibrante com o cinza do concreto e a estrutura sem acabamento.

Durante o trabalho, tive a companhia de algumas crianças e jovens residentes em casas nesta rua, que acompanharam com curiosidade sua feitura. É interessante o quanto algo tão simplório pode causar tal fascinação nas pessoas! Tenho observado, em minhas experiências com a street art, que ela não só muda a visão que se tem de certos espaços, como afeta profundamente o próprio estado de espírito das pessoas que ali habitam. Renovar, pela arte, alguns locais antes decrépitos, causa de fato uma transformação no elemento antropológico ali existente, já que não é possível dissociar o homem de seu habitat. Ao fim do trabalho, e atendendo o pedido de alguns desses meninos e meninas, cedi-lhes as tintas e pincéis para que eles fizessem, como quisessem, uma pintura num velho poste de madeira defronte ao muro pintado _ O que foi bem interessante porque, em posse de tais materiais, tiveram a alegria de registrar algo de si em seu próprio espaço! Ao fim, tendo eles disputado o pequeno espaço do poste, e após vários desenhos, letras, elementos gráficos e sobreposição de camadas, a pintura resultou apenas um azul chapado. Mas foi muito bom ver, no último instante do ano, a alegria nos olhos dessas crianças, empoderadas pela ação da arte!